Sempre entendi o mundo através da ficção. Pelo que escrevo, leio, assisto. Tem alguns personagens que guardo com carinho por serem tão parecidos comigo, seja por ter crescido com eles, como Harry Potter e Bella Swan, ou por me ver em situações tão próximas a que eles viveram em páginas e telas. Mas já tinha alguns anos que não encontrava alguém que fizessem os mesmos questionamentos que eu até conhecer Nick Nelson e Tori Spring.
Conheci o trabalho de Alice Oseman há alguns anos, mas foi apenas quando Heartstopper chegou ao Brasil no final do ano passado que tive oportunidade de começar a ler sua obra. No final de dezembro, peguei COVID-19 e passei meu ano novo sozinha isolada no meu quarto. Eu tenho algumas superstições de ano novo: abraçar meu pai assim que vira o ano, fechar os olhos ao escutar os fogos e agradecer ao ano anterior. Quando eu era mais nova, pensava que era possível "ver" o ano mudando se prestasse muita atenção ao olhar o céu.
Porém, este ano não pude fazer nenhuma das coisas que eu gosto. Não teve brindes. Não teve jantar. Não teve abraço. Então me acolhi no Osemanverse ao começar a leitura de Loveless (Sem Amor, em português) no dia 1º. E, naquelas primeiras páginas eu já sabia que iria ficar encantada por mais um universo literário este ano.
Em abril, a série Heartstopper chegou na Netflix. Acompanhei a pré-produção, o anúncio dos atores, reconheci Joe Locke e Sebastian Croft por acompanhar outro ator de série da Netflix, o Connor Jessup de Locke and Key. Contei os dias para a estreia de Heartstopper e não resisti em ver todos os 8 episódios de uma só vez (e talvez quatro vezes mais). E, apesar de todo o impacto que tive com Loveless e algumas leituras anteriores, foi enxergar Nick Nelson ao som de Why am I Like this, que me fez repensar tudo que eu vivi até aqui.
O quadrinhos são incríveis, mas o impacto da série, ver mais do lado do Nick, seu conflito em se entender. O quanto ele estava sozinho porque seus "amigos" não iriam escutá-lo caso ele falasse. O quando ele ficou confuso de se encontrar ao lado de uma pessoa improvável que todos os seus amigos iriam odiar. O quando eu precisava ter assistido essa série com 15 anos. O quanto talvez eu tivesse me entendido melhor.
Todos esses sentimentos que eu mesma vivi. E talvez precise admitir que ainda vivo. Estar rodeada de pessoas e sentir que não posso ser eu mesma com nem ser quer uma. Manter o sorriso na cara o dia inteiro, controlar a raiva, sentir que estou incomodando, odiar quando começo a falar sem para pelo simples motivo que eu sei que as pessoas ao redor não importam. E, ao mesmo tempo, não conseguir fingir interesse nas mesmas coisas.
Assim que terminei de ver a série, comecei a ler Solitare (Um Ano Solitário, em português) em uma tentativa de me abrigar mais ao lado de Nick e Charlie. E foi então que eu tive vontade de ligar para Alice e pedir para por favor conversar comigo por umas cinco horas seguidas. Tori Spring finge não se importar, quando na verdade, ela se importa demais. Tori se isola, se esconde, usa de seu blog como melhor amigo. Tori observa o mundo ao redor e tem opinião forte sobre tudo e todos. Tori Spring faz de tudo para proteger Charlie e seus amigos. Tori tem medo de pedir ajuda. Niguém vê como Tori está deprimida e isolada em seu próprio mundo.
Me identifiquei com cada vírgula escrita em Solitare e, apesar de não ser a minha história favorita do Osemanverso, é o meu livro favorito. Sei disso porque na minha última sessão de terapia eu só consegui falar sobre Solitare, Tori e como me vi naquela história. Nos mesmos comportamentos. Na falta que eu ando sentindo de ter amigos e a certeza que não sou prioridade de ninguém. Quando digo que preciso me bastar é porque é sábado à noite e não tem uma mensagem no meu celular desde ontem às 22h. Porque ninguém me procura para conversar, ninguém precisa de mim, ninguém lembra que eu existo no meio do fim de semana então tudo que eu posso fazer é tentar escrever alguma coisa em um blog que ninguém vai ler para evitar de passar horas acordada pensando sobre isso.
E, se Tori Sprint me deixou com vontade de conversar, Nick Nelson me fez querer um abraço. Talvez voltar dez anos no tempo, sentar com minha versão de 15 anos e explicar para ela tudo que aconteceu em 2015. Tudo de errado que 2017 traria. Aconselharia não cometer o erro de 2018. E confiar que em 2022 as coisas estariam melhores. Que ela conheceria uma série que a faria entender que está tudo bem.
Aos 15 anos eu me sentia estranha porque nunca tinha beijado. Aos 18, me sentia estranha porque não fazia questão nenhuma de beijar ninguém e nem me pergunte sobre outras coisas. Aos quase 20 tomei a atitude de tirar da minha vida o único cara que já gostei. Aos 22 vi que o jeito que olho para algumas garotas não era tão hétero assim. Aos 25 conheci Nick Nelson que me fez chorar e, no segundo seguinte, ter uma gargalhada gostosa de como passei tantos anos enganando a mim mesma.
Não é apenas uma questão de se entender não-hetero. É uma questão de se permitir ser você mesmo que as pessoas não gostem, porque nem todo mundo vai gostar de você. É tomar controle de si mesmo, da sua vida. É entender que tudo bem não gostar das mesmas coisas que seus amigos, eles não deixam de ser seus amigos por isso. É enfim conhecer termos como assexualidade, bissexualidade, pansexualidade e diversos outros termos lgbtqia+ que não fazia ideia que existia quando percebi, aos 16 anos, que uma garota estava dando em cima de mim na frete do garoto que eu "gostava" e simplesmente fiquei sem reação (talvez porque eu gostasse mais dela do que dele - spoiler alert: ele não beija garotas). Conceitos que enfim me fizeram pensar que tudo isso não passa de rótulos, palavras que nos encaixa em grupos, mais um dos termos que colocamos na redes sociais para nos apresentar em sociedade.
Incrível como apenas agora, com 25 anos, enquanto meus amigos estão casando, planejando carreiras e eu ainda estou me fazendo perguntas e me identificando com adolescentes. Sentindo que eu quero escrever YA, porquê são as histórias que eu quero contar. Sentindo que preciso ser verdadeira comigo mesma sem importar com os outros. Sem preocupar com o que meus pais irão dizer. Com como eles vão agir porque eu não dependo deles mais. E entendendo que está tudo bem gostar das coisas que eu gosto, mesmo que isso signifique passar boa parte do meu dia calada.
Hearstopper me fez sentir que não estou sozinha. Me fez sentir um calor no coração que há anos eu não sentia. E, talvez, não tenha nada de errado em deixar a Julia adolescente assumir o controle de vez em quando. Me permitir amadurecer certas coisas que com 15 anos eu não tive espaço e nem direito para isso.
E está tudo bem.
Está tudo bem dar alguns passos para trás para se encontrar, se entender, enxergar como você quer se apresentar, quem são seus amigos de verdade e quem são pessoas que simplesmente passaram pela sua vida. Que algumas constantes ainda vão permanecer: a mesma melhor amiga que continua cuidando de você mesmo quase vinte anos depois, os mesmos livros na estante, a mesma conta no Twitter. Mas que outras vão ser totalmente diferentes e fazer tanta parte de você como as antigas: um par de óculos, uma calopsita, uma nova url, novos hobbies.
Somos um conjunto de infinitas coisas. Estamos em constante transição e esquecemos disso. Pensamos que histórias sobre identidade e autoconhecimento só podem ser narradas com adolescentes quando somos um conjunto de águas, células e transição. Talvez seja por isso que adultos de quase trinta anos estejam se identificando com uma série adolescente que não teve a possibilidade de assistir. Porque na nossa época, tínhamos certeza que seríamos eternos como vampiros, ou que não deveríamos confiar em garotas bonitas, que sempre tínhamos que ter alguém do sexo oposto para responder quando perguntavam de quem a gente gostava quando, na verdade, ninguém tinha nada a ver com isso.
Heartstopper e todo o universo criado por Alice Oseman me fez sentir acolhida. Não apenas pelos personagens e seus temas, mas por me mostrar que está tudo bem querer escrever histórias com adolescentes bem maiores do que apenas histórias de amor. Que mostrar a realidade não precisa ser apenas sofrimento. E que é possível se identificar com qualquer história em qualquer idade.
Foi por séries como esta, textos como este, que eu criei este blog. Uma busca ao passado pela necessidade de se encontrar no presente. Um espaço para registro da minha constante transição. E está tudo bem.
(Este texto foi escrito ao som de Why I am Like This da Orla Gartland. A música está na trilha sonora de Heartstopper ,mas a cantora está no meu spotify desde 2016, quando andava pela faculdade escutando música indie britânica em segredo por nenhum motivo a não ser medo de admitir o que eu gostava. Talvez eu ainda tenha medo e por isso esteja sozinha em um sábado à noite. Mas este texto está escrito, o que fala muita coisa dos meus dois anos de terapia.)


0 comentários