Ficou horrível. E daí?

By Júlia Guedes - maio 15, 2022

 



No último domingo, recebi a edição #22 da "Na minha cabeça fazsentido", newsletter escrita e produzida por Marina, Laura, e Giulia, mulheres que admiro e identifico demais com o trabalho. Dessa vez, elas escolheram falar sobre criatividade e talvez tenham alugado um tríplex na minha cabeça com cada uma das palavras. 

Eu sou perfeccionista. Me cobro demais e, quando me proponho a produzir algo, precisa estar no mínimo próximo da perfeição. Talvez seja por isso que eu esteja com meu original escondido há quase dois anos, enrolando para enfim fechar a segunda versão (ou seria terceira?) e soltar ele no mundo. E, após ler o texto da Marina, levei um belíssimo tapa na cara: qualquer trabalho criativo não começa do zero. Não vai ficar bom da primeira vez. E tudo bem fazer coisas que a gente SABE que não é bom naquilo. 

O problema é que, se eu não sou boa com o mínimo de esforço, eu desisto. Algo que percebi ser bem comum após algumas horas rolando o feed do Twitter e do TikTok.  Uma necessidade de não cometer erros, de entregar sempre o seu melhor e, em alguns casos, estar constantemente revisando.

Minha dissertação de mestrado passou por cinco revisões e, só dei por encerrada, porque não tinha mais tempo para uma sexta. Adoro fazer borriscos, mas nunca pensei em aprender de fato a desenhar, seguindo técnicas ou simplesmente tentativa e erro por olhar o papel e achar horrível na primeira tentativa. Eu parei de nadar quando não teria mais a possibilidade de eu ser a melhor da turma. Curiosamente, nunca liguei muito para nota. Sempre foi ter a certeza que meu melhor estava ali.

E, após ler o texto da Marina e uma sessão de terapia depois, percebi que a maior causa do meu bloqueio criativo sou eu mesma. Antes mesmo de colocar uma palavra no papel, eu já estou pensando no que as pessoas vão achar do que vão ler e, quando o resultado não sai exatamente como imaginei (spoiler alert: nunca sai), eu deixo de lado.

Sempre coloco na minha cabeça que minha meta vai ser finalizar coisas. Terminar de ler aquele livro que já fincou raízes na minha mesa de cabeceira. Dizer para mim mesma que ainda vou terminar de escrever as três fanfics que inventei na época do dracotok quando nem lembro mais qual era o objetivo da história. Me obriguei a chegar ao final de todo curso que fiz pelo simples fato de que precisava terminar, mesmo na metade vendo que não fazia sentido.

Há algumas semanas, ouvi na terapia que tudo que eu faço, é por obrigação. Por algum motivo, meu cérebro entende que ele tem obrigação de fazer tudo e não consegue deixar fluir nem mesmo para ler um livro, terminar de assistir uma série ou até mesmo lavar a gaiola do Rony e ter o prazer de ver tudo limpinho por cinco minutos. E, de repente, também me obrigo a ser criativa.

Resultado: um looping sem fim de cobranças, ansiedade e nada sendo produzido de verdade.

Não sei como isso começou. Quando uma chavinha virou na minha cabeça e tornei tudo que eu faço forçado, esquecendo de como pode ser leve e divertido simplesmente deixar aquela história ser narrada pelas pontas dos dedos. Criar aqueles personagens que são, ao mesmo tempo, parte de mim e eles mesmos. Rir de piadas que nem sabia que eu poderia criar. Deixar as lágrimas caírem no teclado ao se emocionar com aquelas cenas como se estivesse vivendo-as. E, na verdade, talvez um escritor viva cada uma das palavras que narra.

Sempre gostei de cores. Desenhar, escrever, cortar papeis, colorir, colagem, edits, aesthetic, passar horas fazendo HTML no Tumblr, fingir que era possível escrever uma música. Criar está presente na minha vida desde que me entendo por gente e, por algum motivo, há alguns muitos meses isso se perdeu. A cobrança de estar todo dia cumprindo horário, a obrigação interna de manter a casa arrumada para não virar um caos, a ansiedade interna que não me permite relaxar e simplesmente criar.

Existem técnicas para estimular a criatividade. Tenho certeza que, se procurasse, poderia encontrar alguma que funcionaria para mim. Mas a verdade é que estou cansada de regras, de horários, de seguir um roteiro. Na newsletter, a Laura escreveu uma frase que guardei com carinho. "Um ser criativo em hibernação". Mas por quanto tempo é preciso hibernar? E por que estou hibernando? O que será que vai sair quando o verão enfim chegar?

Bem, talvez isso aqui seja um indício que estamos começando a acordar. 

Obs.: Busquei a foto do texto do meu arquivo lá de 2016 e percebi que não faço nada criativo desde 2018. Fica a dúvida como eu consegui terminar de escrever um livro. 

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