Quando foi a última vez que você fez algo pela primeira vez?
No último fim de semana eu achei que fosse desistir. Não, isso não é um texto sobre depressão. Desde muito tempo eu queria fazer uma tatuagem, mas cresci ouvindo que isso era coisa de gente sem juízo. Dos riscos que haveria em ter borriscos no corpo. Da importância de dar um significado, afinal, aquilo vai estar no seu corpo para sempre. Se eu mudei tanto no período de um ano, o que poderia significar essas linhas daqui há 50?
Por causa de todos esses pensamentos intrusivos, colocados em minha cabeça por pessoas ao meu redor, eu nunca achei que fosse ter coragem. E, confesso, sentada na frente da tatuadora eu achei que fosse desistir. A parte mais irônica é que fui criada para não desistir, para ir em frente, enfrentar os medos. E eu sabia que tudo isso que me falaram não era mais verdade. Vários dos meus amigos têm tatuagens e são pessoas incríveis! Talvez eu só seja mesmo a ponto fora da curva da família.
Mas bem, eu criança já sabia que eu era, porque deveria me preocupar com isso agora?
Porque agora eu sou adulta e agora preciso lidar com as consequências dessa escolha. E porque agora eu também posso ser eu mesma, afinal, tenho um emprego, pago minhas contas, vivo por conta própria e, mesmo que ainda tenha que dar certas satisfações, algumas dessas escolhas não precisam ter opinião de ninguém. E, por mais irônico que seja, quem me falou isso foram justamente as pessoas que colocaram tudo de ruim na minha cabeça quando eu ainda era criança e estava crescendo ouvindo Avril Lavigne, McFLY, Simple Plan, Paramore e diversos outros artistas cheios de tatuagens.
E, no momento em que senti a agulha em minha pele, parecia que enfim estava assinando minha liberdade. Ali era o fim oficial da minha adolescência e o início da tão sonhada minha vida adulta, fazendo as minhas escolhas, lidando com as consequências, me permitindo ter liberdade de escutar as músicas que eu gosto a uma da manhã, a ler fanfics até as três, trabalhar a base de uma xícara de café (coisa que dois meses atrás seria impensável) e não precisar falar com ninguém a hora que eu vou chegar em casa.
Por alguns minutos eu pensei que a escolha de desenho tenha sido precipitada, mas depois de refletir e entender que não foi por acaso que, em uma tarde de julho resolvi escutar Just Like You de Louis Tomlinson. Tatuagem no braço, uma playlist que a minha versão de 7 anos iria apaixonar, e talvez estivesse muito orgulhosa de tudo que a gente tá fazendo. Ela com certeza estaria pulando pelo quarto com o lápis preto nos olhos, ignorando os gritos para que ela abaixasse o volume da playlist que criei e com vontade de mandar todo mundo se foder.
Quando pensei que apenas com 26 anos conseguiria deixar aquela garotinha orgulhosa. Ela jurou que seria uma adolescente cheia de rock n roll, tocando a guitarra dela. Na verdade ela foi uma adolescente tolhida que mal podia ouvir as músicas fora do fone de ouvido. Achou que a faculdade fosse ser o início da vida dela, talvez encontrar o amor da sua vida, mas mal ela sabia que ela conheceu sim uma pessoa, mas ele não quis ficar. E doeu. Ele gostava das mesmas bandas que ela e a fazia se sentir ela mesma.
O quão irônico que demorou seis anos para que ela pudesse sozinha se sentir eu mesma. Eu acredito muito que somos feitos das nossas escolhas, mas que algumas delas são feitas para a gente. E, com certeza, dar o play naquela música em julho não fui eu quem escolhi. Todas as escolhas e a sensação de liberdade que sinto agora foram consequências de uma ação corriqueira, como tudo na vida é.
Agora tenho no meu braço um símbolo que parece ser copiado de um artista famoso. Ou talvez mais de um, considerando quantas bandas usam o mesmo conceito. Mas na verdade, tenho na minha pele um símbolo de coragem. Um símbolo sobre se encontrar. Sobre ser você mesmo sem se importar com o aval de outras pessoas.
E talvez eu venha a fazer outras tatuagens eventualmente, para o desespero do meu pai.


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