Há muito tempo não fazia tanto calor. Aquele calor que dói, que te faz ter vontade de tomar uns cinco banhos por dia ou passar horas em uma piscina. Aquele calor que te impede de dormir e fica mais difícil de respirar. Aquela dor no peito de lembrar como este calor poderia ser agradável. Como aquela última noite de verão a fez se sentir.
A temperatura passada dos 30º, mesmo que já fosse oito da noite. A lua começava a apontar no horizonte e ela apenas fechou os olhos para sentir a brisa que vinha do mar. Se lembrou da última vez que estivera ali. Ela ainda tinha 20 anos e a vida pela frente mas, parecia que era apenas um final. Se pudesse voltar atrás e contar para aquela garota o que estava por vir, talvez as coisas teria sido diferente.
Ou não, porque ela ainda queria ele ali.
A vida dele era uma sequências de cidades, shows e muitas grupies que ela sabia que ele ficava. O violão debaixo do braço e diversos hits que sempre estreavam no top 10 das melhores rádios do país. Mas ela sabia que, quando o verão chegasse, ele seria dela. Ele iria deixar o celular em casa. Levaria apenas o violão, um bloco de notas e um lápis amarelo. Se sentaria no final da tarde com ela, as bochechas coradas pelo dia no Sol. E tinha sido ali que seu sonho começara.
Ela o tinha visto sorrir com os primeiros acordes. Com o primeiro contrato. Com o primeiro show. Ela conhecia cada detalhe em seu rosto, a forma como ele jogava o cabelo e como ele amava aquele calor insuportável.
— A gente pode passar o dia sem roupa! Ou quase. — Era o que ele dizia ao dar de ombros enquanto ela tirava a camiseta de cima do biquini.
— Você é um pervertido. — Ela sorria para ele, corando com aqueles olhos azuis tão presos nela.
Agora todas aquelas palavras eram apenas memórias. Tudo que lhe restara além de textos que ela nunca tinha tido coragem de falar para ele. Conversas incompletas. Promessas quebradas. Um verão que havia ficado para trás enquanto ele rodava o mundo.
Faziam seis anos que ela não o via. Ou melhor, que ele não a via. Seu álbum continuava sendo o mais tocado no Spotify dela e ela até mesmo tinha comprado ingresso para seu show, mas que não teve coragem de ir no último segundo. Vê-lo pessoalmente e saber que ele nunca mais seria dela era uma dor que ela não conseguia aguentar.
É claro que ela não havia ficado seis anos esperando por ele. Ela tinha conhecido outras pessoas, vivido outras aventuras. Tinha se formado na faculdade, começara a trabalhar com arte, algo que sempre quis fazer. Mas ninguém nunca tinha sido o suficiente para que ela esquecesse o que ele a fazia sentir. Ninguém nunca a tinha inspirado como ele havia feito.
O verão sempre foi deles e agora ela se sentia só. De volta àquela praia depois de tantos anos. Dessa vez, era ela quem segurava um bloco de notas e um lápis amarelo. Sentindo a brisa do mar, ela anotava todas as coisas que os dois haviam se prometido. Palavras que não faziam mais sentido:
1. Conquistar o mundo
2. Viver de arte
3. Não parar de sonhar
4. Não se apaixonar um pelo outro
Aquela quarta ela havia quebrado antes mesmo de colocar o ponto final. Mas como ela poderia não se apaixonar quando ele era o homem mais bonito que já conhecera?
Ela deixou o bloco de notas de lado, apenas fechou os olhos. Se permitiu sentir os grãos de areia em seus pés descalços, a brisa quente em seus braços nus, sentir as lágrimas molharem seu rosto. Como ela poderia ter vivido tanta coisa e ainda desejar que ele estivesse ali? Como era possível ter tanto orgulho de uma pessoa e, ao mesmo tempo, se sentir tão sozinha?
Ela escutou passos na areia, mas não ousou abrir os olhos. Era comum turistas passarem por ali, mesmo que aquela praia não fosse tão frequentada, ainda mais aquela hora da noite. E, por isso, ela se assustou quando ouviu a sua voz.
— Achei que você tinha se esquecido.
Ela abriu os olhos para encará-lo de pé ao seu lado. Seus olhos azuis tão brilhantes como antes, mas o rosto mais marcado, a barba por fazer e alguns fios de cabelo branco que a fazia lembrar que eles não eram tão jovens mais.
— Você veio. — Ele sentou-se ao lado dela e ambos encaravam o mar.
O barulho das ondas cobrindo o silêncio, uma paz que apenas a presença dele causava nela.
— Eu não esqueceria. A última noite de verão.
— Você pareceu se esquecer nos últimos anos. — Ela alfinetou. Ele deu um sorriso culpado.
— Me desculpa. Eu não esqueci, só não sabia o que falar. Todos os anos, vim até aqui e te vi sentada no mesmo lugar. Até que você não veio. Eu não sabia como entrar em contato, onde você estava, ou se ainda queria me ver.
— Eu nunca ia não querer te ver.
— Então por que não foi no show de Londres?
Ela ficou em silêncio, porque ele tinha razão. Eles estavam na mesma cidade pela primeira vez em anos e ela não quis vê-lo.
— Eu comprei o ingresso. Mas não consegui sair de casa.
Ele assentiu. Algo não dito havia ficado entre eles nos últimos seus anos. Aquele beijo roubado seguido de uma despedida. Ele nunca havia esquecido a sensação dos lábios dela nos seus. Da forma como ela se segurava nele e em como ela tremia. O nervosismo que nenhuma plateia o havia feito sentir.
— O que aconteceu? — Ele franziu o cenho, se virando para ela. — Eu achei que era o que você queria.
— Mas não era o que você queria. — Ela falou sem desviar o olhar do dele.
— E como você pode saber o que eu queria?
— Você tinha acabado de assinar o contrato. Não haveria espaço para mim na sua vida.
Ele assentiu mais uma vez e olhou para seus pés. A tatuagem que ele havia feito na primeira turnê ardia em sua pele. Ele sabia que era apenas uma sensação psicológica, uma vez que os traços finos estavam cicatrizados há muito tempo. Apenas mais uma marca de uma vida cheia de histórias.
Pensou em quantas coisas poderia dizer a ela. Na dor de vê-la sozinha. Que ele sempre a procurava de cima do palco, inutilmente buscando seu rosto em meio a multidão. Que ele sentia a brisa do mar toda vez que cantava aquelas palavras que haviam sido criadas naquela areia.
Dessa vez, ele tinha o celular no bolso. Pegou o fone de ouvido e entregou para ela, dando play em uma demo que nem mesmo seu agente conhecia.
— O que é isso? — Ela perguntou, ouvindo a melodia doce que ele lhe apresentara.
— As respostas que você não me pediu.
Ela sabia que aquela não era uma música pronta, mas era tudo que ela precisava ouvir. O lado da história dele daquela última noite. Das regras que ele precisou seguir, do que ele abriu mão para conquistar seu sonho. E como que, no fundo, ela havia feito o mesmo.
— Por que você nunca me disse nada disso? — As lágrimas desciam sem permissão pelo seu rosto, apenas os olhos dele à sua frente.
— Porque eu tive medo se você queria isso. Se você conseguiria viver isso comigo.
— Eu sempre só quis você. O que viria junto não me importo.
Ele segurou seu rosto e a beijou. Dessa vez, ela não tremeu. Dessa vez, ela se entregou. Dessa vez, ele não iria embora no dia seguinte sozinho. Dessa vez, ela iria com ele.
— Feliz Aniversário. — As palavras saíram dos lábios deles em forma de promessa. Aquele seria o primeiro de todos os aniversários dela que eles passariam juntos. A última noite de verão.


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